Christiane Angelotti
Com os estudos e pesquisas cada vez mais aprimoradas sobre leitura, descobriu-se que ela vai além da decodificação do código escrito. Ler implica numa estreita relação com as atividades do pensamento e aprendizado. Aprendizagem é a atividade que leva o indivíduo a elaborar mentalmente as estruturas cognitivas, desenvolver competências e mudar comportamentos. Já o pensamento é a base do conhecimento. É a faculdade do processo mental que faz com que o indivíduo modele tudo o que experiencia.
Ler é uma das mais importantes portas de entrada para o conhecimento.
A importância da leitura é debatida há muito tempo. Porém, infelizmente, não há ações suficientes por parte da sociedade para combater um grande inimigo da leitura, o analfabetismo funcional. Tal assunto é um crucial problema da área de educação e que também diz respeito aos envolvidos com a literatura.
Analfabetismo funcional é a denominação dada ao indivíduo que sabe ler, decodifica códigos, frases, textos, mas que não consegue interpretar os mesmos. Algo muito mais comum do que se imagina. Estima-se que entre a população alfabetizada, cerca de 70% são analfabetos funcionais. Entre as causas desse problema está a baixa qualidade do nosso sistema de ensino, não só o público, mas também o privado. Vale ressaltar que o analfabetismo funcional é subdividido em níveis, e afeta a população independente do grau de instrução.
É bom que não confundamos a preguiça de ler com o analfabetismo funcional. Em tempos de redes sociais é muito evidente vermos pessoas que opinam textos, citações etc. sem os terem lido realmente. Motivos diversos, muito provavelmente alguns até podem ser analfabetos funcionais.
Apontar o problema é mais fácil que ajudar a combatê-lo. O preconceito é um fator que atrapalha no processo de erradicação do problema. Muitas vezes o analfabeto funcional se esconde por vergonha e receio da reação por parte da sociedade.
O que podemos fazer? Além de cobrar do governo um sistema de ensino digno, em casa a família deve ler para as crianças, estimular conversas sobre livros, assuntos como notícias em jornais impressos, revistas. Buscar livros que interessem aos jovens leitores pelos temas, que estes chamem a sua atenção. Tratar a leitura como um prazer para que ela entre efetivamente na vida da criança.
A proximidade com os livros e o mundo da leitura, tudo que ela proporciona é uma das armas mais fortes no combate do analfabetismo funcional. E pouco adianta todos os programas de facilitação de acesso ao livro se o leitor não tiver a capacidade para assimilá-lo.
Talvez se tivéssemos mais leitores reais, muitos livros sem qualidade não teriam uma aceitação tão boa a ponto de animarem os editores a produzi-los, ou que fossem impulsionados pelas propagandas de forma tão eficaz. O próprio leitor elevaria a qualidade das publicações. Por enquanto, apenas um sonho, mas não uma utopia.
Texto publicado no jornal Sobrecapa Literal edição de janeiro/2012 (edição 12) http://www.sobrecapaliteral.com.br