terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O analfabetismo funcional e a literatura

Christiane Angelotti



Com os estudos e pesquisas cada vez mais aprimoradas sobre leitura, descobriu-se que ela vai além da decodificação do código escrito. Ler implica numa estreita relação com as atividades do pensamento e aprendizado. Aprendizagem é a atividade que leva o indivíduo a elaborar mentalmente as estruturas cognitivas, desenvolver competências e mudar comportamentos. Já o pensamento é a base do conhecimento. É a faculdade do processo mental que faz com que o indivíduo modele tudo o que experiencia.
 
Ler é uma das mais importantes portas de entrada para o conhecimento.
 
A importância da leitura é debatida há muito tempo. Porém, infelizmente, não há ações suficientes por parte da sociedade para combater um grande inimigo da leitura, o analfabetismo funcional. Tal assunto é um crucial problema da área de educação e que também diz respeito aos envolvidos com a literatura.
 
Analfabetismo funcional é a denominação dada ao indivíduo que sabe ler, decodifica códigos, frases, textos, mas que não consegue interpretar os mesmos. Algo muito mais comum do que se imagina. Estima-se que entre a população alfabetizada, cerca de 70% são analfabetos funcionais. Entre as causas desse problema está a baixa qualidade do nosso sistema de ensino, não só o público, mas também o privado. Vale ressaltar que o analfabetismo funcional é subdividido em níveis, e afeta a população independente do grau de instrução.
 
É bom que não confundamos a preguiça de ler com o analfabetismo funcional. Em tempos de redes sociais é muito evidente vermos pessoas que opinam textos, citações etc. sem os terem lido realmente. Motivos diversos, muito provavelmente alguns até podem ser analfabetos funcionais.
Apontar o problema é mais fácil que ajudar a combatê-lo. O preconceito é um fator que atrapalha no processo de erradicação do problema. Muitas vezes o analfabeto funcional se esconde por vergonha e receio da reação por parte da sociedade.
 
O que podemos fazer? Além de cobrar do governo um sistema de ensino digno, em casa a família deve ler para as crianças, estimular conversas sobre livros, assuntos como notícias em jornais impressos, revistas. Buscar livros que interessem aos jovens leitores pelos temas, que estes chamem a sua atenção. Tratar a leitura como um prazer para que ela entre efetivamente na vida da criança.
 
A proximidade com os livros e o mundo da leitura, tudo que ela proporciona é uma das armas mais fortes no combate do analfabetismo funcional. E pouco adianta todos os programas de facilitação de acesso ao livro se o leitor não tiver a capacidade para assimilá-lo.
 
Talvez se tivéssemos mais leitores reais, muitos livros sem qualidade não teriam uma aceitação tão boa a ponto de animarem os editores a produzi-los, ou que fossem impulsionados pelas propagandas de forma tão eficaz. O próprio leitor elevaria a qualidade das publicações. Por enquanto, apenas um sonho, mas não uma utopia.




Texto publicado no jornal Sobrecapa Literal edição de janeiro/2012 (edição 12) http://www.sobrecapaliteral.com.br

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Personagens Inesquecíveis


 Christiane Angelotti

Tudo bem, devo admitir que ando numa fase super crítica com relação ao mundo literário. Talvez por sempre ter tido uma visão romanceada da vida e por consequência, da literatura. Agora, trabalhando mais, estudando e totalmente envolvida com literatura, vejo que romance não passa de um gênero literário e que no “mundo real”, fora dos livros, o que mais me deixa comovida é a coragem e persistência dos autores de talento que ainda não conquistaram seu “lugar ao sol”. E são muitos.

Bom, mas quero aproveitar o meu espaço e propor uma outra reflexão, sobre os personagens marcantes. Aquela espécie de mágica que acontece quando um autor cria um personagem e ele parece saltar do papel e ganhar vida. Essa empatia entre personagem e leitor, que muitas vezes é construída intencionalmente e acaba dando certo e outras vezes, mesmo sendo construído para ser assim acaba não tendo o resultado desejado. 

Criar um personagem inesquecível é o sonho de todo autor. Muitas vezes, o autor ao construir seu personagem, confere atributos e características ao mesmo sem saber se darão certo, mas o faz por uma espécie de feeling. Em outros momentos, o autor estuda dentro da sua história elementos que possam humanizar seu personagem. Para esse fim, livros como “Jornada de um Herói” de Joseph Campbell, são maravilhosos. Aliás, é um livro que recomendo muito para todos os escritores. Campbell realizou estudos comparativos entre lendas e mitos universais e identificou padrões narrativos comuns entre os mesmos. Mas não se engane quem quiser uma receita, é um livro para estudar, analisar e refletir. Receita para escrever um bom livro, para se construir um personagem de sucesso? Se houvesse mesmo, quem se dedica a escrever sobre tais reflexões inventaria logo um personagem inesquecível, lucraria muito mais.

Acredito que personagens inesquecíveis são aqueles que tocam o coração do leitor. Talvez por serem produzidos num momento de profunda verdade do autor. Aquele momento em que o autor acredita tanto em seu personagem que lhe confere uma “alma”.

Conferir atributos comuns ao ser humano, com toques de coragem e heroísmo? Fazer com que o personagem seja aquilo que gostaríamos de ser? Não sei se há realmente uma receita, além da verdade do autor com relação ao personagem e um certo emprestar sua própria alma ao mesmo. 

Sinto falta na literatura contemporânea de personagens assim, inesquecíveis. Como a Emília de Lobato, Dom Quixote de Cervantes, Diadorim de Guimarães Rosa, Dom Casmurro de Machado, entre tantos outros. Para o número de obras publicadas atualmente, personagens assim são cada vez mais raros, isso é algo a ser pensado.

Estamos naquela época em que a Editora busca fazer seus autores mais conhecidos que a sua própria obra. Um autor se torna famoso e vira uma marca e comercializa-se em torno dele. Egos sendo alimentados, leitores idolatrando o autor e dinheiro na conta, da Editora, do autor (este último não é nada mal, mas não gosto dos meios).

Enfim, quero fazer a minha Belle Époque essa em que nós vivemos, espero conseguir viver de escrever, literalmente.

A propósito, editores, escrevo também sob pseudônimo, óquei?   

 

Texto publicado originalmente na edição no. 10 de Novembro/2011 no Jornal Sobrecapa Literal: www.sobrecapaliteral.com.br


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Literatura e Consumo




Christiane Angelotti


Na atualidade com todas as facilidades que a internet nos oferece ser escritor e/ou poeta virou quase o que era ser modelo e manequim nos anos 80, literalmente uma moda.

É ótimo que muitos queriam escrever, que se esforcem. De todos os que tentam, alguns conseguirão e se sairão bem; outros tantos melhorarão sua escrita e descobriram que ser escritor vai além do prazer e da vontade de ser lido; outros serão colocados “para fora” pelo próprio mercado e pelos leitores. Mas esse mesmo mercado que elege bons escritores promove os ruins por pura intenção de vender. 

Muitas vezes me pergunto por que existem várias literaturas dentro da Literatura? Por que existe a tal literatura de consumo? No Brasil a maior parte dos leitores são de fato leitores ou consomem o objeto livro (compram, fazem uma leitura superficial e os guardam)?
Não pretendo fazer nenhuma análise, mas levantar a questão e propor uma reflexão.

Somos movidos pelo sistema capitalista, isso é um fato. Ele dita desde as nossas escolhas na alimentação, em como nos vestimos e muitas vezes como nos comportamos. É preciso ter uma personalidade muito bem resolvida para não ser influenciado por propagandas e comportamentos repetidos por pessoas que querem pertencer a algo.

Na literatura o capitalismo dita regras também. Muitos autores escrevem aquilo que acreditam que vendem. A moda é vampiros, todos escrevem sobre vampiros. Mudou para anjos, lá vão todas as editoras atrás de livros de anjos para oferecer ao seu público e por aí vai.

Uma parte do público leitor, muitas vezes consome o que está na moda, o assunto da vez e assim esse ciclo é mantido. Televisão, cinema também reforçam os tais modismos. Consumir livro pode significar pertencer a uma classe privilegiada de supostos leitores, o que diz muito num país com um número, ainda, tão grande de analfabetos. 

Literatura é criatividade, é fazer sonhar, questionar, refletir. Não estou falando de “literatura de massa” e “literatura culta”. É literatura a história que transporta seu leitor para dentro dela, que envolve e toca, provoca emoção, atiça a curiosidade.

Questiono a qualidade do que é escrito, do cuidado com a forma, a estética, a honestidade do escritor com o que ele se propõe a fazer. Questiono a preocupação em vender, maior do que a busca pela qualidade e por uma boa história. 

A literatura, com “l” minúsculo mesmo, essa de modismo, passa. O leitor pode se divertir com ela, mas quando pegar novamente esse livro fora do contexto atual, daqui a alguns anos, não terá mais a mesma força. Muitas vezes não representará mais nada. Será realmente um lixo. 
Eu definiria esse tipo de literatura como literatura vazia, aquela que não diz a que veio. E não tem nada a ver em ser ou não popular. Literatura boa deveria ser muito popular. Infelizmente temos outro agravante no nosso ciclo de produção de uma literatura de baixa qualidade, a questão do analfabetismo funcional. E como acabar com esse ciclo? Como colocar no mercado boas histórias e fazer com que cheguem até os leitores e exerçam o mesmo fascínio que a literatura de consumo que é apoiada por outros apelos como filmes, bonecos e produtos diversos de marketing?

Acredito que esse seja o papel dos editores (dos bons), dos escritores e dos leitores.
Cada qual na sua esfera pode contribuir positivamente para que a literatura seja cada vez mais Literatura e menos objeto de consumo.  
Ao editor cabe procurar boas histórias, bons autores, primar pela qualidade literária e do objeto livro. Acreditar que o livro é produto, mas não só isso. O livro transcende o papel de mero objeto de consumo. O livro influencia, ajuda a formar o leitor, propõe reflexão.

Apesar de todo o excesso da produção literária não faltam boas produções e bons autores. Falta torná-los conhecidos e próximos do leitor. Mas faltam também melhores critérios por parte dos editores do que deve ou não entrar para o mercado. Acredito no papel do editor, pena que muitos deles, a maioria, não percebam a força que têm. 

Como lido com crianças e jovens penso sempre no leitor em formação, aquele que ainda não tem conhecimento para selecionar qualitativamente o que lê. Por outro lado, é um leitor que absorve muito melhor tudo o que chega ao seu alcance. Se tiverem contato com boas histórias estaremos formando um público de leitores, dos melhores.

Tanto o autor como o editor deveriam buscar conhecer melhor o seu público. Se escrever para crianças, conhecer a criança e seu universo de hoje, seus conflitos, seu cotidiano.

Muitas vezes o leitor conhece mais a figura do autor do que a sua obra. Um sinal um tanto quanto estranho, não? Uma inversão absurda, se falarmos no fazer literário.

Acredito na literatura acessível, aquela que nasce do coração do escritor. Uma literatura que está acima do capitalismo. Aquela literatura que seduz e convida o leitor a sonhar. 


Texto publicado originalmente na edição no. 9 de Outubro/2011 no Jornal Sobrecapa Literal: www.sobrecapaliteral.com.br

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Escrever, inspiração ou trabalho?




 Christiane Angelotti

"A noção comum que se tem a respeito do escritor é que pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito - fenômeno a que se dá o nome de 'Inspiração'. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças 'aquele' dom de nascimento que é a sua marca. Pode ser que existam esses privilegiados - mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil." Rachel de Queiroz

Qual o escritor que nunca se deparou com uma página em branco e um “vazio de ideias”? Por que isso ocorre? O que nos falta nesse momento?
Tenho colegas que dizem serem momentos em que parece faltar uma conexão com o mundo interno. Isso explicaria porque não consigo escrever quando estou doente, porque não sinto a escrita fluir quando estou com algum problema mais sério que parece esgotar as minhas energias.
Considero escrever um oficio e como todo ele, requer disciplina, esforço, vontade de aprender, estudo, dedicação. Mas há sim uma enorme diferença em ler um texto inspirado. Ele atinge diretamente a alma do leitor. É quase um momento mágico. E escrever estando inspirado também confere a mesma sensação.
Talvez existam escritores que só saibam escrever assim, inspirados. Mas é possível viver inspirado? Ou inspiração também é algo que se aprende a buscar?
Quem escreve (por vocação), tem como diferencial um poder de observação capaz de extrair do mundo, do cotidiano, momentos inspirados, as tais “sacadas’ e assim garantir um toque especial na sua escrita. E isso requer um exercício de observação, de escuta e de sentir.
Penso, então, que trabalho e inspiração podem caminhar lado a lado.
Nos últimos tempos tenho lido alguns autores novos e me surpreendido com muita coisa. Se fosse editora apostaria em uns 3 ou 4 nomes de escritores que considero promissores. E há muito mais. Por outro lado, há os que considero devaneios do mercado... Não entendo como alguns textos são editados e porque são. Sei que há leitores para todos os estilos e defendo essa ideia, mas alguns textos simplesmente não chegam nem a configurar no que se pode chamar de literatura, não dá. Bom, vou até mudar o rumo da coluna para não ser crítica demais.

Escrever é ter o dom de trabalhar com as palavras. Fazer de um assunto banal, foco de atenção. De uma observação do cotidiano, uma história interessante.
Nem sempre há o domínio da língua, mas isso se aprende. Difícil é ensinar alguém a ser escritor. E o que falta? Será inspiração? Vocação? Trabalho? Ou tudo isso junto?

Talvez para tentar entender a tal inspiração para escrever seja necessário entender porque escrevemos e o que nos motiva.

Escreve-se por amor e por necessidade.
Escreve-se para tentar entender o mundo, os outros e a si mesmo.
Escreve-se porque viver não é suficiente.
Escreve-se para sonhar.

Sempre me lembro de Rainer Maria Rilke em "Cartas a um jovem poeta" quando penso no que significa ser escritor. Seria possível viver sem escrever?

Por isso acho que a inspiração talvez seja um breve momento. Trabalhamos para alcançá-la, mas ela aparece quando menos se espera. Escrever vai além, é amor e trabalho.


*Texto originalmente publicado na edição número 8 (setembro) do Jornal Sobrecapa Literal ( www.sobrecapalitera.com.br ),  na coluna "Editor em Foco"

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Literatura para crianças, qual a dificuldade?


Christiane Angelotti

A literatura infantil tem tido um destaque cada vez maior.
Embora seja um gênero crescente e que garanta às editoras uma boa vendagem, é um gênero que sofre constante preconceito do próprio meio literário.
Escrever para crianças parece fácil, mas não se enganem, é o público mais difícil e não é fiel. Gosta do que é bom e não de um nome específico.
Se não forem levadas pelo consumismo, ou seja, se não forem deseducadas, como crianças que são estimuladas a comprar livros com brindes, elas serão enfáticas: Gostam ou não gostam.
Aliás, já vi criança dizer para o autor que só gostou das ilustrações do livro dele.
Uma história fraca pode ganhar um toque especial com um bom contador. E se este tiver laços sentimentais com a criança, sendo pai, mãe, ou avós, melhor ainda.
Escrever para crianças não é falar de forma infantil, nem usar diminutivos.
É uma escrita que requer do autor um processo de resgate da sua infância, uma comunicação com um lado seu que muitas vezes ficou perdido, abafado pelo “mundo adulto”. É quase como virar criança novamente, a cada história.
A criança tem uma vantagem sobre os adultos, enxerga o mundo de uma forma diferenciada. Sua opinião é mais sincera, sua visão mais pura, sua imaginação é maior. A infância é regida pela fantasia.
A criança tem um aguçado senso de justiça. A vitória do bem é certa, mas as aventuras levadas com bom humor, também são bem-vindas.
Em 1978, o escritor Isaac Singer (falecido em 1991), ao receber o Prêmio Nobel de Literatura disse em seu discurso porque começou a escrever para crianças:
“Senhoras e senhores: há quinhentas razões pelas quais eu comecei a escrever para crianças, mas para economizar tempo irei mencionar somente dez delas.
1)    Crianças lêem livros e não resenhas. Elas não dão a mínima para a crítica.
2)      Crianças não lêem para buscar sua identidade.
3)    Elas não lêem para se ver livres de culpa, para saciar sua sede de rebelião, ou para se desembaraçar da alienação.
4)     Elas não vêem utilidade na psicologia.
5)    Elas detestam sociologia.
6)     Elas não tentam entender Kafka ou o Finnegans Wake.
7)    Elas ainda crêem em Deus, na família, anjos, demônios, bruxas, gnomos, lógica, claridade, pontuação, e outras coisas obsoletas.
8)    Elas amam historias interessantes, não comentários, guias ou notas de rodapé.
9)     Quando um livro é chato, elas bocejam descaradamente, sem qualquer vergonha ou medo da autoridade.
10) Elas não esperam que seu bem-amado escritor redima a humanidade. Jovens como são, elas sabem que isto não está sob o poder dele. Apenas adultos possuem tais ilusões infantis."

Acho que o discurso de Singer nos fornece alguns bons parâmetros do que é escrever para criança.
Um bom livro infantil não é só repleto de ilustrações. A ilustração diz sempre algo, assim como a palavra. Devem se complementar e de preferência, estarem no mesmo nível de qualidade.
Um bom livro infantil agrada também ao adulto.
E nem todo autor consagrado se sai bem na escrita para o público infantil.
Bom, dá trabalho, mas receber um sorriso de satisfação por terem, mesmo que por um breve instante, habitado a história que criamos nos dá uma alegria enorme. Afinal, esse público não mente.    

Texto publicado originalmente na edição de agosto/2011 do jornal Sobrecapa  Literal (http://www.sobrecapaliteral.com.br/ )

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Para Gostar de Ler



                                                                                                  Christiane Angelotti

Não é de hoje a preocupação em incentivar a leitura tanto para as crianças como para adultos. Os benefícios da leitura são muitos e já comprovados em inúmeras pesquisas.  Pessoas que lêem, falam e escrevem melhor. Por consequência, se expressam melhor. Como incentivar uma criança a ler, como criar o hábito da leitura são temas de diversos debates e estudos.  Acredito que a grande pergunta seria como estimular o prazer da leitura.
Hábitos e comportamentos se mantêm quando gostamos de fazer algo. Claro que cada pessoa funciona de um jeito. Existem aquelas em que, por curiosidade, por algum instinto, são atraídas pelos livros, pelas histórias, mesmo tendo todo um ambiente desfavorável. Mas a grande maioria não funciona assim.
A escola acabou ficando responsável por incentivar a leitura. Porém, cabe à família, principalmente, esse papel. Ler deveria ser parte de educar. Afinal, ler transforma vidas. A leitura sendo compartilhada como algo divertido, como sendo um presente e um hábito de toda uma sociedade não teria nenhuma dificuldade em se tornar parte da vida das crianças e jovens. Até porque a criança segue o exemplo.
O que fascina e atrai alguém para a leitura é uma boa história. Uma boa história é aquela que nos deixa fazer parte dela. Habitamos nela enquanto lemos. Infelizmente não é todo livro que contém uma boa história. Há muito lixo no mercado. Alguns feitos para que o leitor se interesse momentaneamente. Uma leitura “da moda”. Muitos livros com “receitas prontas” de como fazer isso, como fazer aquilo, como ser assim... Nesse ponto, tenho até que respeitar, pois há pessoas que gostam de ler tais “manuais” e se os mesmos trazem algum benefício para o leitor, têm o seu valor. Mas penso que isso não seja literatura.
Literatura é o que nos faz sonhar, viajar na imaginação, exercitar a emoção. Ao abrir um livro, se você sentir como se estivesse sido transportado para outro mundo, para uma determinada cena, uma época, uma ocasião... Isso é literatura.
Em um país como o Brasil, onde as taxas de analfabetismo são altas e o analfabetismo funcional é algo a ser muito considerado, há de se pensar e agir cada vez mais em formas para atrair as pessoas para o mundo dos livros. Por isso, acredito na importância de movimentos como saraus, contação de histórias, as chamadas oficinas (de leitura, poesia...); tudo o que puder aproximar as pessoas dos livros são ações de suma importância e deveriam ser prioridades para os governos. Aliás, porque será que não são? Se a leitura nos leva à reflexão, a formar um pensamento crítico e às mudanças?


Texto originalmente publicado na minha coluna do jornal Sobrecapa Literal, junho de 2011 


Para Voar Mais Alto


Autora: Flávia Côrtes
Editora Biruta 




Enfrentar uma perda é um período difícil na vida de qualquer pessoa, ainda mais para um garoto, pré-adolescente que perdeu seu pai. Lidar com essa perda não é fácil, e quando a vida também muda? E sempre muda.
Este livro conta a história de Quequé, não se enganem pelo apelido que tem uma singela e linda explicação, um simpático garoto que vive a angústia da perda de seu pai e a chegada de um padastro.
É um livro que fala sobre saudade, medos, perdas, ganhos e, sobretudo, amor.
É um tema forte. E falar sobre essa saudade, essa dor da perda e o medo de esquecer quem se ama não é uma tarefa fácil. Flávia Côrtes soube contar essa história de forma linda e criativa. Não há nada de trivial, é um livro único.  Intercalar a visão do garoto Quequé com os seus devaneios é um dos pontos altos do livro.  É impossível não se encantar com a narrativa e caminhar junto com o personagem central.
Voei alto com a história de Quequé. Me trouxe lembranças, reflexões e sonhos. Vi no garoto um pouco de mim, um pouco de pessoas que conheço, um pouco dos meus filhos. Senti sua saudade, sua angústia e seu amor.
“Pra Voar Mais Alto” é um livro para todas as idades. É daqueles poucos que conseguem ultrapassar a categoria infanto-juvenil. É uma história envolvente e cativante.
O projeto gráfico do livro também merece destaque. Suas páginas coloridas, letras diferenciadas nas mudanças dos capítulos, nos devaneios do menino ficaram bem coordenados com a história.
Em “Pra Voar Mais Alto” Flávia Côrtes consagra-se como uma grande autora da atualidade. E embora tenhamos muitos bons autores, não vejo tantos nesse patamar. Flávia está na sua melhor fase até agora e aposto no seu talento e na sua produção.
Um dos melhores livros da autora até o momento e um dos melhores livros infanto-juvenis da atualidade.
O livro é também uma grande publicação da editora Biruta, que tem me surpreendido positivamente nos últimos tempos com livros bem acabados, bem cuidados, com temática diversificada e ao mesmo tempo atendendo a demanda de um público especial e nada tolo, o infanto-juvenil.


Resenha publicada originalmente no Jornal Sobrecapa Literal  edição de  julho de 2011.
http://www.sobrecapaliteral.com.br/